sexta-feira, 29 de março de 2013

Saudades

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No meu tempo de criança fiz tudo àquilo que pude,
joguei bolinhas de gude, tive  meu gado de osso
acolherado ao pescoço com corda feita de embira,
devidamente trançada, depois de bem descascada
e unida tira por tira.

Tomava banhos de sanga na melhor praia da gente,
com água limpa e corrente, de verdade, sem mentiras,
onde os jundiás e traíras tinham mais de palmo e meio,
contando só os “menores”, pois, se falar nos maiores,
vão pensar que é devaneio...

Tive meu carro de lombas com rodas feitas a facão,
no qual corri muito chão, encima de uma forquilha,
descendo várias coxilhas com garbo e felicidade,
talvez, a cinco por hora, conforme recordo agora,
da “grande velocidade...”

Brinquedo bom e barato, porém, às vezes, suplício,
quando exige o “sacrifício” da garota ou do garoto
que se meter a piloto, sem estar bem preparado,
pois, como tudo na vida, só se acha uma descida,
depois do morro escalado.

Saudades do que se foi, do vagar e da inocência,
bem longe da violência que impera hoje no mundo,
e, sepulta em solo profundo todo o amor das criaturas,
levando os homens de bem a se trancarem, também,
nas mais fechadas clausuras.

A.L.Oliveira/set/2010
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terça-feira, 10 de julho de 2012

Benzeduras

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Fui criado em liberdade
Como vento em campo aberto
Sem nenhum doutor por perto
Nem remédios, nem receitas
Ou qualquer prova a ser feita
Numa eventual doença
Quase sempre havendo cura
Só com chá ou benzedura
Conforme mandava a crença

As infusões eram feitas
Com as ervas da natureza
Milagrosas, com certeza
Nos males de pouco porte
Quando o sujeito, com sorte
Sarava em menos de mês
Só com a fé na eficácia
Fazendo com que a farmácia
Perdesse mais um freguês

Recordo de minha avó
Benzendo pra mau olhado
Catapora, nervo quebrado
E outras anomalias
E, as palavras que proferia
Com firmeza e devoção:
"Te corto cobreiro brabo
Separo cabeça e rabo"(*)
Na forma da tradição

À vovó Maria Antônia
Minha singela homenagem
Na transcrição da mensagem
Guardada como lembrança
Respeitando essa cultura
Que mantém as benzeduras
Com seu próprio linguajar:
“Cobreiro eu te benzo e tu hás de sarar
Com este galhinho da Virgem Maria
Pedindo que ela não deixe cruzar
Cobreiro de aranha, de sapo te benzo
E a Virgem Maria te há de curar”

A.L.Oliveira/jun/2011

(*)=Cobreiro ou cobrelo = erupção cutânea causada pelo contato de cobra,
aranha ou sapo nas vestes do paciente, segundo antiga crença popular.

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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Marcas Do Tempo

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As coisas que marcam o tempo,
cada qual tem seu papel:
o relógio, por exemplo,
implacável e cruel,
faz seu serviço de graça.

Passo a passo, lentamente,
encolhe a vida da gente,
a cada hora que passa.

O espelho, fiel, sincero,
com ele ninguém se ilude,
agrada na juventude,
mostrando a força, a beleza,
mas, agride, na velhice,
refletindo a rabugice,
que é própria da natureza.

A idade o torna embaçado,
parece um tanto zangado,
ralha, implica, renitente.

Quando lhe encaro de frente,
me ocorre certa amargura,
pois, travo enorme peleia,
com um velho de cara feia,
que mora em sua moldura.

A.L.Oliveira/dez/2005
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Baú de Memórias

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Velho baú de memórias
Recheado de histórias
Tão antigas quanto o dono
Mas, também, ao abandono
Tem hoje a mesma desdita
E alguns dilemas cruéis
Por não dispor dos papéis
Aonde foram escritas.

Ambos fechados por dentro
Constituem o epicentro
De discussões muito duras:
Pois, um tem a fechadura
Completamente emperrada
E, o outro, de tanto uso
Mais parece um parafuso
Com a cabeça enferrujada.

Se não contas, não te conto
É este mesmo o confronto
Num desfilar de lamentos
Entre dois velhos birrentos
Que já perderam a esperança:
Só falam se perguntados
Ou, então, ficam calados
Enquanto a idade avança.

O registro, às vezes, some
Ao precisarem do nome
De um amigo ou conhecido
Confessando, desenxabidos:
Desculpa, me deu “um branco”
Pois, quase ao final da estória
Em geral, volta a memória
De novo, a pegar no tranco.

E, assim, vão levando a vida
Nesse andar de despedida
De um mundo sem piedade
Onde a tal “melhor idade”
Não passa de uma falácia
Talvez, um termo jocoso
Pra não dizer que o idoso
É um “amante da farmácia”.

A.L.Oliveira/set/2008
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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Felicidade

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Sou feliz, abençoado,
Contente por ter ao lado
As coisas lindas da vida,
Dentre elas, mais querida,
A namorada, a parceira
Que, comigo, a vida inteira,
Vem exaltando a beleza,
O carinho, e, o afeto
Com que o Grande Arquiteto,
Construiu a natureza.

Nosso rancho é na coxilha,
Feito à beira de uma trilha
Que serpenteia na mata,
Pra nos levar à cascata
Onde ocorre noite e dia,
Um festival da poesia
Jamais escrita em papel;
Pois, ali, até as mágoas,
No cantar daquelas águas,
Também brincam de “rappel”.

Bem ao longe, no horizonte,
Brilha cedo a grande fonte
De energia dos pagos,
Pra refletir-se no lago,
Que é manancial importante,
No qual as aves migrantes
Vêm acampar no entorno;
Onde aquelas lá do Norte,
Encontram alimento forte,
Pra viagem de retorno.

À noite, vemos no campo,
Vasto mar de pirilampos
A bailar de forma arisca,
Brincando de pisca-pisca,
Ou, talvez, de apaga, apaga,
Numa seqüência que afaga
Mesmo a alma empedernida,
Que viu tudo e não viu nada,
Nessa longa caminhada
Pelas estradas da vida.

A.L.Oliveira/jul/2007
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sábado, 13 de agosto de 2011

Projeto Funarte

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Estamos divulgando abaixo, com satisfação, o vídeo produzido pela Funarte (Fundação Nacional de Artes/Ministério da Cultura) do Governo Federal, mostrando aspectos do trabalho apresentado por nossa querida neta Felícia, com referência ao Projeto de Contação de Histórias do Arco da Velha, dirigido especialmente ao público infantil. Seu trabalho vem sendo encenado em várias cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e do Ceará, contando com aprovação e patrocínio da Funarte. Parabéns, Felícia.



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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Desesperança

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"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto" (Ruy Barbosa, 1914)


Num discurso magistral
Há mais de noventa anos
Vislumbrava esse baiano
Grande orador e jurista
O começo de uma lista
Que hoje cresce demais
Sem respeito aos tribunais
Nem aos “nobres” deputados
Cujo rol, dos mais ativos
Traz gente do Executivo
E, do “austero” Senado.

A matéria é recorrente
Embora muito antiquada
Pois, volta atualizada
Numa previsão profética
Sendo a tal falta de ética
Nos escalões superiores
O principal dos fatores
Para o motivo funesto
De levar o homem honrado
A tornar-se um revoltado
Por conta de ser honesto.

Não havendo dignidade
Nem referência aos valores
Vai perdendo seus pudores
Pra conservar as virtudes
Que as trouxe da juventude
Carregadas como herança
Pois, chega à desesperança
Ao ver tantos desenganos
Sem falar no “mar de lama”
Que transborda e se derrama
Num verdadeiro oceano.


A.L.Oliveira/jul/2007
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